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Notícias

24
nov

Municípios de São Paulo ainda utilizam lixões para descartar resíduos

Por  – Editorias: AtualidadesRádio USP

Em estudo feito pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) com 163 municípios foi visto que 38 deles possuem lixões como forma de descarte de resíduos. As pessoas utilizam esse local para depositar itens que não querem mais, sem nenhum tipo de seleção ou proteção para o solo e que podem causar problemas de saúde nos seres humanos.

A maior parte dos lixões é aberta e não possui restrição de entrada. “As pessoas podem entrar e atear fogo em compostos com cloro, que podem gerar dioxinas e furanos, que são componentes carcinogênicos. Esses compostos podem ser carregados por grãos de poeira que param em gramas que servem de alimentação para a vaca e que vão para o leite e a carne que o ser humano consome”, diz Ednilson Viana, professor de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. Outro risco é que os resíduos expostos causam proliferação de animais que podem causar doenças.

Como alternativa, existe o aterro sanitário, que pode ser usado para o descarte de resíduos. Ao contrário dos lixões, é um projeto de engenharia que passa por uma série de normas para ser construído, operado, encerrado e monitorado após o encerramento. As normas de construção para descarte de resíduos não perigosos foram feitas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e o manual foi nomeado de NBR 13 896.

Foto: Pedro Bolle / USP Imagens
Foto: Pedro Bolle / USP Imagens

O primeiro passo para construir um aterro sanitário é selecionar uma área adequada. O local não pode ser próximo a um rio e a permeabilidade do solo precisa ser analisada para que não tenha risco de vazamento para o lençol freático. “Tem restrição à distância em relação aos núcleos urbanos e a direção do vento também não pode ser em direção ao núcleo urbano porque causa odores”, diz o professor. Após encontrar essa área adequada, é preciso impermeabilizar o solo com materiais como plástico e argila.

Depois é construído um sistema de drenagem para carregar o líquido que vai escorrer e também para levar o biogás que será produzido com a queima de componentes. Os resíduos são cobertos periodicamente para ficarem protegidos da chuva e para que não fiquem expostos aos animais. Mesmo se for construído adequadamente, ele precisa ser operado de maneira correta para que não se torne um lixão em pouco tempo.

O professor Viana cita o aterro sanitário da Essencis como um projeto que deu certo e que pode servir de exemplo para outros planos de gestão de resíduos. Segundo Murilo Merlotto, funcionário da Essencis, são manejadas 10 mil toneladas de resíduos por dia que permitirão uma vida útil de 15 anos. O aterro está localizado na cidade de Caieiras, no Estado de São Paulo, e está aberto a visitações previamente agendadas pelo e-mail mmerlotto@essencis.com.br.

Apesar de ser uma boa opção, o aterro sanitário ainda não é a solução final para o descarte de lixo. A forma mais correta seria por meio da “hierarquia de resíduos”, que mostra todos os passos de manejo para que o resíduo seja levado ao aterro apenas no final do processo. “É preciso fazer o possível para valorizar esses resíduos sólidos antes de descartá-los por completo”, diz Viana. A primeira etapa para valorização do resíduo é reciclagem e reutilização. Se isso não for possível, a próxima fase é retirar a energia do resíduo através da queima. “Se não der para fazer essas duas coisas, a solução torna-se o aterro sanitário”, diz o professor.

Foto: Pedro Bolle / USP Imagens
Foto: Pedro Bolle / USP Imagens

Muitos municípios afirmam que não possuem recursos financeiros para substituir lixões por aterros sanitários ou não têm pessoas com habilidades técnicas para fazer a construção. “Eu tenho a minha teoria de que, apesar das políticas públicas, a gente tem uma dificuldade em avançar na diminuição de lixões porque o nosso modelo de gestão dos resíduos não está adequado”, diz Viana. Quando se cuida dos resíduos de forma individual no município, o custo que recai sobre cada lugar é muito alto. “O Estado de São Paulo deveria montar um sistema de congregação dos municípios para que o custo de um aterro sanitário fosse dividido por todos eles, e não bancado por apenas um.”

Segundo Viana, o indivíduo também tem um papel fundamental no que se refere ao descarte do lixo. Em primeiro lugar, ele precisa tomar consciência de que se o seu resíduo não for tratado da maneira correta pode trazer resultados negativos para ele próprio e sua saúde. “Ele é dono do resíduo dele e responsável por isso. Não é porque ele colocou na rua que a sua responsabilidade acabou. Quando o resíduo é bem tratado, ele se torna uma fonte de recursos e não um estorvo.”

23
nov

Cientistas descobrem mecanismo que acelera derretimento de geleiras

Estudo mostra como um dos glaciares na Antártida começou a sofrer rápida retração em 1945, depois de aquecimento causado pelo El Niño

Fábio de Castro,
O Estado de S. Paulo

 

Cientistas descobriram o mecanismo que tem provocado o rápido derretimento do glaciar da Ilha Pine, no oeste da Antártida e concluíram que a aceleração de sua retração começou por volta de 1945, depois de um período de aquecimento oceânico ligado ao fenômeno El Niño.

Entre as geleiras que estão derretendo em todo o mundo, as que tem o maior potencial para contribuir com a elevação do nível do mar são as que ficam no Manto de Gelo da Antártida Ocidental, de acordo com os autores do novo estudo, publicado nesta quarta-feira, 23, na revista científica Nature.

Localizado em uma ilha no Mar de Amundsen, no oeste da Antártida, o grande glaciar está se retraindo, mas o mecanismo inicial que levou a essa retração não era conhecido.

Para realizar o estudo, os cientistas analisaram detalhadamente amostras de sedimentos retiradas debaixo do glaciar flutuante da Ilha Pine. A deposição dos sedimentos deixa sinais que documentam as mudanças ambientais ocorridas ao longo dos anos.

Com a análise, os cientistas mostraram que, próximo de um proeminente cume no solo marinho, o glaciar sofreu uma transição ao longo do tempo: o que era uma geleira assentada no solo passou a ser uma plataforma de gelo flutuante.

Utilizando técnicas de datação aplicadas aos sedimentos, os cientistas revelaram que uma cavidade oceânica se formou sob a plataforma de gelo, por trás dos cumes submarinos, começou a se formar aproximadamente em 1945, depois de um pico de calor associado ao fenômeno El Niño no Oceano Pacífico.

O descolamento da plataforma de gelo ocorreu na década de 1970, segundo o estudo. De acordo com os autores, embora nas décadas seguintes as condições climáticas já tenham voltado aos padrões anteriores a 1940, o afinamento e retração do Glaciar da Ilha Pine não parou.

Segundo eles, os resultados do estudo ajudam a esclarecer os mecanismos que controlam o derretimento de mantos de gelo e indicam que a retração pode continuar mesmo quando as pressões climáticas se enfraquecem.

O grupo de cientistas que realizou o novo estudo foi liderado por Martin Truffer, da Universidade do Alasca em Fairbanks (Estados Unidos), e por David Vaughan e James Smith, ambos da Universidade de Cambridge (Reino Unido).

 

21
nov

‘O que antes era impensável, agora é imparável’, diz Ban Ki-moon sobre Acordo de Paris

Secretário-geral da ONU diz que falou com Trump sobre mudanças climáticas e que saiu “otimista” da conversa, acreditando que o presidente eleito dos EUA vai entender a urgência do problema e que vai compreender as forças de mercado

 

Giovana Girardi

MARRAKESH – O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, defendeu nesta terça-feira (15) que a “unidade global em torno das mudanças climáticas, que há alguns anos era impensável, agora é imparável” e que isso seria motivo para ser otimista em relação ao que pode acontecer na gestão de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos.

Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fala à imprensa na COP de Marrakesh. Crédito: Youssef Boudlal / Reuters

Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fala à imprensa na COP de Marrakesh. Crédito: Youssef Boudlal / Reuters

Ban Ki-moon falou com a imprensa na manhã desta terça em Marrakesh, onde está sendo realizada a 22.ª Conferência do Clima da ONU, e contou que conversou com Trump após a eleição sobre vários assuntos, entre ele as mudanças climáticas. O sul-coreano não quis revelar o que o presidente eleito lhe disse sobre o tema, mas afirmou que continua otimista e que espera que Trump entenda a “seriedade e a urgência de lidar com as mudanças climáticas”.

“Não posso falar sobre ele, só sobre mim mesmo, mas posso dizer que ele foi uma pessoa de sucesso antes de ser eleito e que entende as forças de mercado”, disse.

O secretário-geral, que deixa o cargo no começo do ano, lembrou um ponto já citado por outros negociadores na conferência e por observadores da situação americana de que alguns Estados, cidades e empresas no país vêm investindo em energias renováveis. “Eles entenderam que a economia de baixo carbono é a resposta para o futuro”, declarou. Disse também que os países concordaram com o Acordo de Paris por entenderem que é para o benefício deles próprios e do mundo. “Trump vai ter de entender a realidade.”

“Eu viajei todo o mundo como secretário-geral da ONU e vi o impacto das mudanças climáticas no Antártida, no Ártico, na Amazônia, em tantos lugares. Eu fui convencido, vendo por mim mesmo, que a mudança do clima está acontecendo muito mais rápido do que a ciência esperava e é por causa do comportamento humano. Então temos de mudar nosso comportamento”, afirmou.

Nesta terça começou em Marrakesh o segmento de alto nível da conferência, com a presença de cerca de 80 chefes de estado e ministros para a etapa final de negociação sobre como o Acordo de Paris vai caminhar para ser implementado. Estão presentes o presidente francês, François Hollande, que liderou o processo no ano passado, e a chilena Michelle Bachelet.

18
nov

Eventos extremos estão cada mais relacionados às mudanças climáticas

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, de 79 eventos extremos que ocorreram de 2011 a 2015, mais da metade foi relacionada em algum grau às mudanças climáticas; no Brasil, foi apontada a seca da Amazônia entre 2015 e 2015 como um exemplo, já para a seca em São Paulo o estudo apontou que não há evidências claras, mas ela foi piorada pelo aumento da vulnerabilidade na região

Giovana Girardi

Uma das previsões dos cientistas para um mundo mais quente é que serão cada vez mais frequentes e intensos os chamados eventos extremos – muito frio ou muito calor; chuvas e nevascas intensas ou secas severas. Mas já podem ser atribuídos às mudanças climáticas alguns desses eventos que têm ocorrido em uma quantidade maior do que antes? A Organização Meteorológica Mundial (OMM) acaba de dar um parecer positivo neste sentido.

Represa seca no sistema Cantareira, em 2014. Impacto do evento foi maior pelo aumento da vulnerabilidade na região. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

Represa seca no sistema Cantareira, em 2014. Impacto do evento foi maior pelo aumento da vulnerabilidade na região. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

O relatório O Clima Global 2011-2015, divulgado nesta terça-feira (8) na 22.ª Conferência do Clima da ONU, que é realizada em Marrakesh, apontou que há cada vez mais evidências relacionando um com o outro. Eles analisaram situações desse período – os cinco anos mais quentes já registrados, com 2015 ocupando o primeiro lugar – e concluíram que em muitas delas é visível a pegada humana.

Foram examinados 79 eventos extremos individuais que ocorreram nesses cinco anos e, de acordo com a OMM, mais da metade revelou que as mudanças climáticas induzidas pelo homem contribuíram para o evento extremo em questão. Alguns estudos mostraram que a probabilidade de calor extremo aumentou 10 vezes ou mais. Veja infográfico abaixo.

Para chegar a essa conclusão eles fazem os chamados “estudos de atribuição”, em que trabalham com simulações de um evento para uma dada região. Em uma primeira, eles consideram somente as chances de esse evento ocorrer por causas naturais. Depois eles fazem o cálculo levando em conta as mudanças no clima provocadas pelo homem. Na sequência, comparam as duas simulações com o que ocorreu de fato, o que permite estimar as chances de terem sido resultado da interferência humana no clima.

O trabalho analisou pelo menos três eventos no Brasil: a enxurrada com deslizamento de terra no Rio de Janeiro, em 2011 (considerado o evento único deste tipo que teve mais mortes no mundo: mais de 900), a seca em São Paulo, entre 2013 e 2015, e a seca na Amazônia entre 2014 e 2015.

Nos três casos, assim como valeu para quase todas as situações de extremos de precipitação (tanto altos quanto baixos) analisadas no relatório, a OMM considerou que não houve sinais diretos tão fortes de relação com a mudança do clima. Mas ao menos para a seca amazônica a organização mencionou uma “considerável preocupação” de que pode se tratar de um “ponto de inflexão” – ou ponto de virada, em que a situação não tem mais retorno.

“Apesar de ainda não poder se declarar com confiança que se trata de uma tendência de longo prazo, as temporadas de secas intensas e quentes da Bacia Amazônica do Brasil em 2014 e 2015 são motivo de preocupação como possíveis pontos de inflexão no sistema climático”, aponta o relatório, que lembra que a precipitação em Manaus entre junho e outubro de 2015 foi 58% abaixo do normal.

“Embora esta seja normalmente a época mais seca do ano, a precipitação ainda é de 50 a 100 mm por mês, mas os totais de chuvas de 2015 eram mais típicos da estação seca de um clima de savana do que um clima de floresta tropical”, pontua o documento. “As condições secas, com temperaturas geralmente 2°C a 3°C acima do normal, contribuíram para a atividade de fogo muito alta, com o número de incêndios no estado do Amazonas em 2015 em níveis recordes”, continua.

São Paulo. Sobre a seca de São Paulo, o estudo foi inconclusivo. “Ainda não foi encontrada uma evidência clara”, apontam os pesquisadores. Mas eles alertam que a gravidade do caso foi piorada por ações antrópicas, que aumentaram a vulnerabilidade da região.

“A (baixa) precipitação durante o evento não foi extraordinária. Déficits semelhantes ou maiores de 14 meses ocorreram em outras três ocasiões desde 1940, mas os impactos foram exacerbados por um aumento substancial na demanda por água, devido principalmente ao crescimento populacional”, diz o relatório.

“Todos os eventos de falta ou excesso de chuvas fazem parte da variabilidade natural do clima. Mas se considerarmos os impactos, ou seja os desastres naturais, isso em certa forma tem a ver com ações humanas, pois o fato de construir em áreas de risco ou expostas aos extremos de chuva pode levar a desastres naturais que matam pessoas, como ocorreu no Rio, ou gerar crises de escassez de água, como em São Paulo, Amazônia ou Nordeste”, explica o climatologista José Antonio Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que analisou o relatório a pedido do Estado.

“No caso da crise hídrica de São Paulo, quando em janeiro de 2014 choveu somente 30% do esperado, menos água não foi o suficiente para aplacar a sede de uma população cada vez maior, com sistemas de armazenamento e distribuição ultrapassados e cheio de falhas e sem um bom gerenciamento de água”, complementa.

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Mundo. Para o mundo, o trabalho concluiu que os casos de temperaturas extremas são os mais facilmente associados às alterações climáticas induzidas pelo homem. Os exemplos incluem o recorde de temperaturas sazonais e anuais nos Estados Unidos em 2012 e na Austrália em 2013, os verões quentes na Ásia Oriental e Europa Ocidental em 2013, ondas de calor na primavera e outono de 2014 na Austrália, calor recorde anual na Europa em 2014 e uma onda de calor na Argentina em dezembro de 2013.

Os eventos de maior impacto foram a seca da África Oriental entre 2010-2012, que estima-se ter matado 258.000 pessoas; inundações no Sudeste Asiático em 2011, que mataram 800 pessoas e causaram mais de US$ 40 bilhões em perdas econômicas; as ondas de calor de 2015 na Índia e no Paquistão, que tiraram mais de 4.100 vidas; o furacão Sandy em 2012 que causou US$ 67 bilhões em perdas econômicas nos Estados Unidos da América, e o tufão Haiyan que matou 7.800 pessoas nas Filipinas em 2013.

“O Acordo de Paris visa limitar o aumento da temperatura global bem abaixo de 2°C e perseguir esforços em direção a 1,5°C. Este relatório confirma que a temperatura média em 2015 já atingiu a marca de 1°C. Acabamos de ter o período de cinco anos mais quente nos registros históricos, com 2015 com o título de ano mais quente. Até mesmo esse recorde provavelmente será superado em 2016”, afirmou em comunicado à imprensa o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

“Os efeitos das mudanças climáticas têm sido consistentemente visíveis na escala global desde a década de 1980: aumento da temperatura global, tanto sobre a terra como sobre o oceano; aumento do nível do mar; e derretimento generalizado do gelo. Aumentaram os riscos de eventos extremos, como ondas de calor, secas, chuvas recordes e inundações danosas”, disse.

16
nov

Cidades estão na causa e na consequência da mudança do clima

Mensagem está em relatório divulgado pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, que destaca o papel das cidades na emissão de gases de efeito estufa e em como elas podem ser afetadas por eventos extremos, falta de energia e água e problemas de saúde

Giovana Girardi

Com expectativas de abrigarem, em 2050, até 91% da população brasileira, as cidades podem ser os ambientes mais impactados no País com as mudanças climáticas. É nelas que deverá ocorrer a maior parte das emissões de gases de efeito estufa no Brasil e são elas que mais devem sofrer.

Aumento da temperatura pode vir seguido de redução do acesso à água e à energia

Aumento da temperatura pode vir seguido de redução do acesso à água e à energia

Essa é a mensagem passada por um grupo de cientistas no novo relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), que será lançado nesta terça-feira (8) na 22.ª Conferência do Clima das Nações Unidas, que começou nesta segunda em Marrakesh (Marrocos)

O trabalho – uma compilação de uma uma série de estudos publicados ao longo dos últimos 8 anos – aponta, por exemplo, para riscos na oferta de água. O relatório lembra que, hoje, 55% das capitais do País dos conglomerados urbanos já requerem um novo manancial e outros 35% deles pedem um novo sistema de produção.

E no futuro a pressão vai ficar pior. De acordo com o relatório, há uma expectativa de aumento de 28% no aumento da demanda por água até 2025, na comparação com dados de 2005, o que vai demandar um investimento de R$ 22 bilhões.

“A mudança do clima intensifica e amplia problemas que muitas vezes já são conhecidos numa cidade, como a ocorrência de fortes chuvas com pontos de alagamento, inundações e deslizamentos, a expansão de doenças, com a presença de mosquitos vetores, como é o caso da dengue, zika e chikungunya, entre outras. Somado a esses problemas, surgem novos desafios como o desabastecimento de água causado por secas prolongadas, as ondas de calor mais frequentes e o aumento do nível do mar”, destaca o documento.

Veja na galeria abaixo alguns dos impactos esperados.

O impacto das mudanças climáticas nas cidades

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“O objetivo maior deste trabalho é mostrar a importância que as cidades têm, apesar de não estarem nas negociações climáticas”, disse ao Estado Suzana Kahn, presidente do Comitê Científico do PBMC.

Ele se refere ao fato de que no estabelecimento de decisões como o Acordo de Paris, que entrou em vigor na última sexta-feira (4), só participam os governos nacionais. “Mas é nas cidades onde vai ocorrer a maior parte dos impactos. São elas que vão ter de se adaptar”, explicou.

Suzana destaca o risco de diminuição do acesso à água mencionado acima. “As áreas urbanas são o segundo maior consumidor de água no País, só atrás da irrigação. Quando ocorrem eventos climáticos extremos, como chuva muito intensa em período muito curto, ocorre um carregamento de resíduos, detritos, piora um cenário de falta de saneamento, levando a problemas de potabilidade graves. O mesmo ocorre com secas muito prolongadas, que também faz com que os recursos hídricos percam sua qualidade, porque não diluem os poluentes, além da seca em si.”

O problema vem junto com uma solução. “As pessoas ainda não relacionam, mas fragmentos florestais são essenciais para vida na cidade, não só para diminuir a temperatura, mas para atuar justamente nesses cenários e ajudar a preservar águas.”

O relatório detalha os dois lados das cidades: como causadoras do problema das mudanças climáticas e como alvo das consequências. “É nas cidades onde se consome mais da metade de energia do mundo. Então elas têm um papel importante na mitigação (redução) das emissões de gases. E elas terão de se adaptar aos impactos, porque é onde vive a maior parte da população mundial”, complementou a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Outro objetivo do trabalho é chamar os prefeitos a participarem mais das negociações de seus países. “As cidades deveriam estar integradas no plano de ação do Brasil para cumprir as suas metas junto ao Acordo de Paris. Para chegar à redução de emissões pretendida pelo Brasil até 2030, a estratégia tem de ser elaborada em conjunto com as cidades”, defendeu.

Hoje já existem alguns grupos, como o C-40 (que reúne líderes de megacidades) para discutir paralelamente a questão, mas ao menos no Brasil, há pouco resultado concreto. Em 2009, cidades como São Paulo e Rio de Janeiro lançaram seus planos municipais de combate às mudanças climáticas, mas as metas acabaram deixadas de lado.

A justificativa, em geral, é que algumas medidas dependem de ações nacionais, como incentivos ao transporte público ou regulamentações para a geração de energia distribuída (como ter um telhado solar em casa). “De fato não temos rebatimento da política federal nas cidades. Precisa ter uma gestão integrada”, defendeu a pesquisadora.

 

11
nov

Brasil deve apresentar plano para cumprir o Acordo de Paris até final do mês

Ideia é colocar uma proposta de ações e mecanismos de financiamento para cumprir as metas brasileiras em consulta pública de modo que todos os setores envolvidos com emissões de gases de efeito estufa possam se manifestar; mas plano deve entrar em vigor somente na segunda metade do ano que vem

por Giovana Girardi

O Brasil deve apresentar para consulta pública, até o final do mês, uma proposta de implementação de suas metas de redução de gases de efeito estufa apresentadas junto ao Acordo de Paris, as chamadas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas).

Uma das metas do Brasil é aumentar para 16% a participação de etanol na matriz energética do País. Crédito: Daniel Teixeira / Estadão

Uma das metas do Brasil é aumentar para 16% a participação de etanol na matriz energética do País. Crédito: Daniel Teixeira / Estadão

Em entrevista ao Estado, Everton Lucero, Secretário de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente informou que o órgão acabou de receber o resultado de uma consultoria que foi encomendada para apresentar sugestões de caminhos para se cumprir as metas setoriais do País e também propor meios de financiar essas ações.

Como contribuição ao Acordo de Paris, que entra em vigor nesta sexta-feira, 4, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões totais de gases de efeito estufa em 37% até 2025 e 43% até 2030, em comparação com valores de 2005. Para atingir isso, listou algumas medidas, como zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030, restaurar 12 milhões de hectares de florestas, restaurar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, e garantir a presença de 32% de fontes renováveis como solar, eólica, biomassa e etanol na matriz energética.

Na NDC não foi explicado, porém, como vai se alcançar tudo isso nem quem vai pagar a conta. O novo plano deve trazer as primeiras indicações nesse sentido.

Segundo Lucero, nas próximas semana o documento será compartilhado com ministérios que se relacionam com a questão como Minas e Energia, Agricultura, Ciência, Fazenda, Planejamento e Cidades. “Ao longo do mês espero receber desses ministérios uma reação inicial e a ideia é tornar a proposta pública até o final de novembro”, disse.

Para o primeiro semestre do ano que vem a ideia é fazer o que ele chamou de “diálogos estruturados” com os setores energético, agrícola, florestal, de transporte. “Queremos ter subsídio da sociedade para enriquecer a estratégia, de modo que ela seja nacional, não só do Ministério do Meio Ambiente”, complementou. Segundo Lucero, a ideia é poder finalizar o documento a partir de julho do ano que vem.

“Este rascunho que temos no momento traz para cada meta uma lista de ações que seriam necessárias para alcançá-la, assim como instrumentos financeiros que devem ser estimulados ou criados”, disse.

Uma das ideias, afirmou, é criar “green bonds” (títulos verdes) para ajudar a financiar as ações. Segundo ele, seria um “sinal para o mercado compreenda a seriedade do governo com o cumprimento das metas”.

Lucero afirmou que ainda não foi possível quantificar quanto custaria alcançar todas as metas. Alguns estudos já indicaram que para restaurar os 12 milhões de hectares seriam necessários até R$ 52 bilhões. Já zerar o desmatamento poderia ficar em R$ 5 bilhões ao ano até 2030.

“Para nós no momento é menos importante pensar no custo, mas na mobilização de recursos. Já sabemos que não vai ser via renúncia fiscal nem com subsídio público. Num contexto de limitação de gastos públicos, temos de buscar mobilização de capital de fonte privada e também internacional. Precisamos ser criativos na na forma de encontrar soluções. Não dá para pensar que é só o governo que vai arcar o custo”, explicou.

Além disso, disse, deve ocorrer um direcionamento de ações a fim de priorizá-las conforme o perfil das emissões.

COP de Marrakesh. Lucero estará com o ministro Sarney Filho em Marrakesh a partir da segunda semana de conferência para ajudar nas negociações em torno do estabelecimento das regras para a implementação global do Acordo de Paris.

Ele antecipou que o País deve fazer algum anúncio no setor de florestas e mudança de uso da terra para que seja possível avançar no combate ao desmatamento. “Para isso precisamos de apoio internacional.” Há expectativa de que o Brasil decida aderir ao chamado Bonn Challenge, que tem uma meta a restauração de 150 milhões de hectares, em todo o mundo, de florestas degradadas até 2020.

O País também está levando sete propostas para as negociações diplomáticas em Marrakesh. Em coletiva à imprensa, o embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho, negociador-chefe da delegação brasileira, explicou que um dos pontos mais polêmicos é como vai ser dar a abertura da primeira reunião das partes do Acordo de Paris, que foi chamada de CMA.

Até esta quinta-feira, 94 países haviam ratificado o acordo, faltando ainda 102 que trabalharam na sua confecção no ano passado. Apesar de já ser mais que suficiente para entrar em vigor, estão de fora neste momento figuras importantes, como Rússia, Japão e Austrália. Por causa disso, há quem defenda que a CMA seja aberta, suspensa e reaberta somente em 2018. O Brasil quer que isso ocorra já em 2017.

“O Brasil defende manter o momento político favorável, o sentido da urgência que o tema requer. Em um ano, continuaríamos fazendo o trabalho que deve ser feito, mas dando o sinal político da urgência. Uma mera suspensão para 2018, como alguns países defendem, é contrário a isso. Se choca com o momento político que alcançamos”, afirmou.

Para ele, com a proposta brasileira, seria possível terminar o processo de implantação em 2018. “Mas isso nos faz temer que se for adiado, chegaremos perigosamente muito perto do ao momento de entrar em operação (2020).”

10
nov

Acordo de Paris entra em vigor. Desafio agora é torná-lo mais ambicioso

A rapidez na adoção do acordo por quase cem países cria um momento de empolgação diante de um problema complexo. As emissões de gases de efeito estufa precisam cair drasticamente, mas continuam subindo, enquanto o planeta está cada vez mais quente. Metas precisariam crescer 25% para conter aquecimento a menos de 2°C

por Giovana Girardi

O Acordo de Paris para o combate às mudanças climáticas entra nesta sexta-feira (4) em vigor em tempo recorde, menos de um ano depois de ter sido fechado na capital francesa por 195 países, com o desafio de acelerar e incrementar suas ações a fim de evitar os piores impactos do aquecimento global.

Torre Eiffel é iluminada com pedido de 100% de energias renováveis durante a COP de Paris, no final do ano passado. Crédito: AP

Torre Eiffel é iluminada com pedido de 100% de energias renováveis durante a COP de Paris, no final do ano passado. Crédito: AP

A rapidez na adoção, até ontem, por 94 países, cria um momento de empolgação diante de um problema complexo. As emissões de gases de efeito estufa precisam cair drasticamente, mas continuam subindo, enquanto o planeta está cada vez mais quente – a expectativa é que 2016 vai bater o recorde, pelo terceiro ano seguido, como o mais quente desde o início dos registros.

Por outro lado, novos cálculos confirmam que as chamadas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) – nome técnico dos compromissos que cada país ofereceu como contribuição ao acordo –, ao serem somadas, ficam bem aquém do necessário para limitar o aquecimento do planeta a menos de 2°C até o final do século. Estão mais distantes ainda do 1,5°C, valor mais desejado para evitar danos aos países mais sensíveis à mudança do clima.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) fez nesta quinta o alerta de que o mundo só vai alcançar a meta dos 2°C se fizer um corte adicional de 25% nas emissões de gases de efeito estufa até 2030 em relação ao que já estava previsto para ser reduzido.

O dado consta do Gap Report, relatório que todo ano mede a lacuna entre as ações que a humanidade está tomando para diminuir a quantidade de gases que é lançada na atmosfera e o quanto de fato precisaria estar sendo feito para limitar o aquecimento.

Pela conta, em 2030 todos os países juntos deveriam emitir no máximo 42 gigatoneladas de CO2 equivalente (a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono), mas considerando o ritmo de ações atuais e os compromissos assumidos pelos países junto ao Acordo de Paris, a emissão do mundo estará entre 54 e 56 gigatoneladas. Com isso, o planeta fica no rumo de aquecer entre 2,9°C a 3,4°C até 2100, na comparação com níveis de antes da Revolução Industrial.

Gap de emissões

A rápida entrada em vigor do acordo passa um sinal claro aos países que ainda não o ratificaram, e também a empresas, mercado financeiro e setores que de algum modo estão ligados ao problema, que o mundo está comprometido a resolvê-lo. A expectativa é que também acelere as ações justamente para fazer essa conta fechar.

“É um momento para celebrar. E também de olhar para frente com vontade renovada para a tarefa que temos adiante. Em curto tempo – e certamente nos próximos 15 anos – precisamos ver reduções sem precedentes nas emissões de gases de efeito estufa e esforços inigualáveis para construir sociedades que possam resistir aos crescentes impactos climáticos”, afirmam Patricia Espinosa, secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, e Salaheddine Mezouar, ministro das relações internacionais do Marrocos e presidente da conferência do Clima de Marrakesh.

Em artigo que será divulgado nesta sexta, eles lembram que as emissões ainda não estão caindo, “fato de deve estar à frente das preocupações no encontro de Marrakesh” para ser coletivamente resolvido.

Marrakesh. A partir da próxima segunda-feira, a cidade vai sediar a 22.ª Conferência do Clima da ONU, que terá a missão de dar o pontapé inicial nesse processo. Será a primeira oportunidade para as partes que já ratificaram o Acordo de Paris a começarem a decidir como se dará sua implementação. Desse grupo fazem parte os dois maiores emissores do planeta – China e Estados Unidos – e também pesos-pesados nessa discussão, como Índia, União Europeia e Brasil.

Na prática, porém, a entrada em vigor, comemorada como um arroubo de vontade política até então inédita nas negociações de clima – principalmente quando Estados Unidos e China resolveram tomar a dianteira desse processo –, não significa que imediatamente os países começarão a adotar novas medidas para cumprir suas metas de redução de emissões.

O acordo passa agora por um processo burocrático para definir algumas regras do jogo e só então torná-lo de fato operacional. É preciso definir, por exemplo, o conjunto de informações que os países terão de apresentar quando forem comunicar suas NDCs; qual será o mecanismo de contabilidade de avanços; como se dará o mecanismo de mercado e de financiamento (Veja propostas brasileiras para a negociação).

A verdade, afirma o embaixador José Antonio Marcondes de Carvalho, negociador-chefe da delegação brasileira, é que não se esperava que o acordo entraria em vigor tão rápido. Quando foi fechado, em dezembro do ano passado, se considerava que isso só ocorreria em 2020.

“A entrada em vigor marca um momento político favorável e demonstra consenso da comunidade internacional sobre a urgência de ações que devem ser tomadas para combater a mudança do clima”, disse ontem em coletiva à imprensa. Mas não quer dizer que a pressa não foi importante, ressalta. Segundo ele, isso vai acelerar os trabalhos de implementação.

Ao mesmo tempo, diz, é preciso ter uma solução para ações anteriores a 2020, que também estão previstas no Acordo de Paris.

Isso porque quase todos os compromissos que os países apresentaram para o acordo têm como ponto de partida o ano de 2020, para serem cumpridas até 2025 ou 2030. Mas o texto também estabeleceu que antes disso outras ações, ainda a serem definidas, têm de ser feitas, como incrementar compromissos anteriores, voluntários, que foram apresentados em 2009, na COP de Copenhague. “Não temos tempo a perder”, afirmou o embaixador.

Responsabilidade. Para Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, o principal ganho da entrada em vigor é justamente que a partir de segunda já haverá o primeiro espaço formal para começar a regulamentação.

“Ninguém imaginou que o acordo entraria em vigor em menos de um ano e agora temos quase cem países que já o ratificaram. Imagino que isso vai impor um censo de responsabilidade para tirar o Acordo de Paris do papel”, disse ao Estado. “O que acontece é que nenhum país mais pode se esconder. O acordo é realidade. Os países têm de começar a se preparar.”

Ele lembrou que o Gap Report traz “uma mensagem contundente de que a coisa tá feita” e disse que espera que isso possa de algum modo influenciar as negociações em Marrakesh. “Talvez a conferência impulsione o inventário informal que será feito em 2018”, afirmou.

Rittl se referiu uma checagem que vai ser feita naquele ano para que os países digam se tem condições de aumentar a ambição de suas metas. “Começar a implantar o Acordo de Paris agora pode nos permitir vislumbrar um aumento das reduções de emissões já em 2018.”

 

9
nov

Corte de emissões precisa ser 25% maior para conter aquecimento a menos de 2°C

Segundo relatório do Pnuma, em 2030 todos os países juntos deveriam emitir no máximo 42 gigatoneladas de CO₂ equivalente, mas considerando o ritmo de ações atuais e os compromissos assumidos pelos países junto ao Acordo de Paris, a emissão do mundo estará entre 54 e 56 gigatoneladas, o que pode elevar a temperatura de 2,9°C a 3,4°C até 2100

Giovana Girardi

Um dia antes da entrada em vigor do Acordo de Paris de combate ao aquecimento global, a Organização das Nações Unidas fez na manhã desta quinta-feira (3) um alerta. O mundo só vai conseguir evitar os piores efeitos das mudanças climáticas se fizer um corte adicional de 25% nas emissões de gases de efeito estufa até 2030 em relação ao que já estava previsto.

Fumaça de termelétrica a carvão na Europa. Reuters

Fumaça de termelétrica a carvão na Europa. Reuters

O dado consta do Gap Report, relatório feito pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que todo ano mede a lacuna entre as ações que a humanidade está tomando para diminuir a quantidade de gases que é lançada na atmosfera e o quanto de fato precisaria estar sendo feito a fim limitar a elevação da temperatura do planeta suba a menos de 2°C até o final do século.

O cálculo leva em conta estudos que estimam qual é o máximo de gases como CO₂ (dióxido de carbono) e CH₄ (metano) que os países poderiam estar emitindo naquele ano para ser compatível com essa temperatura. Esses gases, capazes de aprisionar o calor na Terra, se acumulam na atmosfera e levam muitos anos para se dissiparem.

No caso do CO₂, estamos falando de até mil anos. Como atualmente já vivemos com a maior concentração deles em milhares de anos, as emissões têm de cair drasticamente para evitar os piores danos das mudanças climáticas, como tempestades mais intensas, secas mais prolongadas e um maior aumento do nível do mar.

Pela conta, em 2030 todos os países juntos deveriam emitir no máximo 42 gigatoneladas de CO₂ equivalente (a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono), mas considerando o ritmo de ações atuais e os compromissos assumidos pelos países junto ao Acordo de Paris, a emissão do mundo estará entre 54 e 56 gigatoneladas.

Para se ter uma ideia, estima-se que o Brasil inteiro tenha emitido no ano passado quase 2 gigatoneladas de CO₂ equivalente.

De acordo com o relatório, com essa quantidade mundial de emissões, a temperatura subiria de 2,9°C a 3,4°C até 2100, na comparação com os valores pré-Revolução Industrial.

O Acordo de Paris, que entra em vigor nesta sexta-feira (4), um mês depois de ter atingido os parâmetros mínimos de adesão (55 países representando 55% das emissões), prevê esforços para limitar o aquecimento a menos de 2°C até o final do século, com tentativa de ficar em 1,5°C. Mas não foi imposto aos países um limite de emissões. Cada um falou com quanto pode contribuir para esse fim, mas é aí que a conta não fecha.

O alerta que o Pnuma e outros grupos científicos que se debruçaram sobre esses compromissos das nações vem fazendo desde que eles foram apresentados no ano passado é que é preciso aumentar a ambição. Ou depois serão necessárias tecnologias muito avançadas, a um custo muito elevado, para tirar carbono da atmosfera.

Para o diretor do Pnuma, Erik Solheim, o Acordo de Paris retardará a mudança do clima, assim como o fará a recente emenda adotada em Kigali para reduzir os hidrofluorcarbonos (HFC), mas isso não é suficiente.

“Se não começarmos a tomar medidas adicionais hoje mesmo, começando pela próxima reunião do clima, que será realizada em Marrakesh, deveremos lamentar uma tragédia humana que é evitável. O crescente número de refugiados do clima afetados por fome, pobreza, doenças e conflitos será um lembrete constante de nosso fracasso. A ciência nos diz que temos de avançar muito mais rápido”, declarou, em nota à imprensa.

Na próxima segunda-feira (7), começa em Marrakesh a 22ª Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU (COP), que vai abrir os trabalhos para a implementação do Acordo de Paris, fechado em dezembro do ano passado. Até o momento, 94 países, das 197 partes que assinaram o acordo, já o ratificaram. Entre eles estão os maiores emissores do mundo – China e Estados Unidos – e também países que têm uma colaboração importante para o problema, como Brasil.

8
nov

Corte de emissões precisa ser 25% maior para conter aquecimento a menos de 2°C

Giovana Girardi

Segundo relatório do Pnuma, em 2030 todos os países juntos deveriam emitir no máximo 42 gigatoneladas de CO₂ equivalente, mas considerando o ritmo de ações atuais e os compromissos assumidos pelos países junto ao Acordo de Paris, a emissão do mundo estará entre 54 e 56 gigatoneladas, o que pode elevar a temperatura de 2,9°C a 3,4°C até 2100

 

Um dia antes da entrada em vigor do Acordo de Paris de combate ao aquecimento global, a Organização das Nações Unidas fez na manhã desta quinta-feira (3) um alerta. O mundo só vai conseguir evitar os piores efeitos das mudanças climáticas se fizer um corte adicional de 25% nas emissões de gases de efeito estufa até 2030 em relação ao que já estava previsto.

Fumaça de termelétrica a carvão na Europa. Reuters

Fumaça de termelétrica a carvão na Europa. Reuters

O dado consta do Gap Report, relatório feito pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que todo ano mede a lacuna entre as ações que a humanidade está tomando para diminuir a quantidade de gases que é lançada na atmosfera e o quanto de fato precisaria estar sendo feito a fim limitar a elevação da temperatura do planeta suba a menos de 2°C até o final do século.

O cálculo leva em conta estudos que estimam qual é o máximo de gases como CO₂ (dióxido de carbono) e CH₄ (metano) que os países poderiam estar emitindo naquele ano para ser compatível com essa temperatura. Esses gases, capazes de aprisionar o calor na Terra, se acumulam na atmosfera e levam muitos anos para se dissiparem.

No caso do CO₂, estamos falando de até mil anos. Como atualmente já vivemos com a maior concentração deles em milhares de anos, as emissões têm de cair drasticamente para evitar os piores danos das mudanças climáticas, como tempestades mais intensas, secas mais prolongadas e um maior aumento do nível do mar.

Pela conta, em 2030 todos os países juntos deveriam emitir no máximo 42 gigatoneladas de CO₂ equivalente (a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono), mas considerando o ritmo de ações atuais e os compromissos assumidos pelos países junto ao Acordo de Paris, a emissão do mundo estará entre 54 e 56 gigatoneladas.

Para se ter uma ideia, estima-se que o Brasil inteiro tenha emitido no ano passado quase 2 gigatoneladas de CO₂ equivalente.

De acordo com o relatório, com essa quantidade mundial de emissões, a temperatura subiria de 2,9°C a 3,4°C até 2100, na comparação com os valores pré-Revolução Industrial.

O Acordo de Paris, que entra em vigor nesta sexta-feira (4), um mês depois de ter atingido os parâmetros mínimos de adesão (55 países representando 55% das emissões), prevê esforços para limitar o aquecimento a menos de 2°C até o final do século, com tentativa de ficar em 1,5°C. Mas não foi imposto aos países um limite de emissões. Cada um falou com quanto pode contribuir para esse fim, mas é aí que a conta não fecha.

O alerta que o Pnuma e outros grupos científicos que se debruçaram sobre esses compromissos das nações vem fazendo desde que eles foram apresentados no ano passado é que é preciso aumentar a ambição. Ou depois serão necessárias tecnologias muito avançadas, a um custo muito elevado, para tirar carbono da atmosfera.

Para o diretor do Pnuma, Erik Solheim, o Acordo de Paris retardará a mudança do clima, assim como o fará a recente emenda adotada em Kigali para reduzir os hidrofluorcarbonos (HFC), mas isso não é suficiente.

“Se não começarmos a tomar medidas adicionais hoje mesmo, começando pela próxima reunião do clima, que será realizada em Marrakesh, deveremos lamentar uma tragédia humana que é evitável. O crescente número de refugiados do clima afetados por fome, pobreza, doenças e conflitos será um lembrete constante de nosso fracasso. A ciência nos diz que temos de avançar muito mais rápido”, declarou, em nota à imprensa.

Na próxima segunda-feira (7), começa em Marrakesh a 22ª Conferência das Partes da Convenção do Clima da ONU (COP), que vai abrir os trabalhos para a implementação do Acordo de Paris, fechado em dezembro do ano passado. Até o momento, 94 países, das 197 partes que assinaram o acordo, já o ratificaram. Entre eles estão os maiores emissores do mundo – China e Estados Unidos – e também países que têm uma colaboração importante para o problema, como Brasil.

 

7
nov

Emissões de gases de efeito estufa do Brasil sobem 3,5% em 2015

Giovana Girardi

Apesar da crise econômica, que em geral é associada a queda de emissões, o Brasil lançou para a atmosfera 1,927 bilhão de toneladas CO2 equivalente no ano passado, contra 1,861 bilhão de toneladas em 2014. A alta ocorreu pelo aumento da taxa de desmatamento na Amazônia

O aumento da taxa de desmatamento na Amazônia no ano passado levou a uma alta de 3,5% nas emissões de gases de efeito estufa do Brasil, na comparação com 2014. O dado foi divulgado nesta quarta-feira (26) pelo Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg), um monitoramento paralelo ao oficial feito pelo Observatório do Clima.

 

Desmatamento voltou a crescer entre grandes polígonos na Amazônia. Crédito: Tiago Queiroz / EstadãoDesmatamento voltou a crescer entre grandes polígonos na Amazônia.

Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

Apesar da crise econômica, que em geral é associada à queda de emissões, o Brasil lançou para a atmosfera 1,927 bilhão de toneladas CO2 equivalente (a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono) no ano passado, contra 1,861 bilhão de toneladas em 2014. Os números são de emissões brutas, sem descontar as remoções por florestas.

A crise teve reflexo nas emissões do setor de energia, que apresentaram pela primeira vez desde 2009 uma queda (5,3% no ano passado), mas nenhum impacto no desmatamento. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa anual de perda da Amazônia, entre agosto de 2014 e julho de 2015, cresceu 24% em relação ao período anterior.

O setor de mudança do uso do solo foi historicamente a principal fonte de gases de efeito estufa no Brasil, mas a queda do desmatamento de cerca de 80% entre 2004 e 2012 tinha sido o principal motivo pelo qual o País diminui sua contribuição com o aquecimento global. Segundo o levantamento, agora, porém, houve uma alta de 12% das emissões por mudança do uso da terra, considerando todos os biomas.

O engenheiro florestal Tasso Azevedo, que coordena o Seeg, afirma que as flutuações na taxa de desmatamento que têm ocorrido nos últimos anos têm mantido as emissões quase estáveis (veja no quadro abaixo).

“De 2005 a 2015, a queda de emissões totais do Brasil foi de 39%, mas se fizermos um corte, vemos que isso se concentra de 2005 a 2010 (queda de 42,1%). De 2010 para 2015 ficou praticamente estável (2% de redução no período). Na verdade só tivemos uma redução grande num momento muito curto, quando houve a principal redução no desmatamento. Nos outros setores as emissões continuaram crescendo sempre. As de energia, em dez anos, cresceram 44,7%. No mundo foi de 10%”, disse Azevedo em coletiva à imprensa.

emissoes-26out2016

Excluindo a fatia de mudanças no uso da terra, as emissões no Brasil cresceram 24% nos últimos dez anos, movimento parecido com o de outros países em desenvolvimento.

Contramão de Paris. Para Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, os números de emissões revelados pelo levantamento fazem até parecer que nada aconteceu no Brasil recentemente em termos de combate ao aquecimento global.

Ele lembrou que o País foi a terceira grande economia mundial a ratificar o Acordo de Paris, depois de Estados Unidos e China. Mas que as ações que estão sendo tomadas internamente vão na contramão desse compromisso.

Rittl citou como exemplo a alta do desmatamento (contrária à meta assumida de zerá-lo até 2030), e relativizou a queda das emissões de energia. “Por causa da recessão econômica, as emissões do setor de energia caíram. Mas o que vai acontecer se mantivermos o conjunto de políticas públicas atuais quando a gente voltar a ter taxas de crescimento econômico razoáveis, que deve acontecer nos próximos anos?”, questionou.

“A gente precisa tirar o Acordo de Paris do papel e mudar o rumo da nossa economia. Já que estamos em momento de grandes ajustes, vamos ajustar a economia para que a retomada do crescimento nos leve no rumo da descarbonização”, complementou.

O ambientalista lembrou que apenas 1,6% do crédito agrícola em 2015 e 2016 foi investido no plano ABC (para atividades agrícolas de baixo carbono) e que o plano mais recente de expansão de energia, o PDE 2020-2024, ainda traz um aumento de projeção de investimento em combustíveis fósseis.

 

“Ainda se acha que a grande solução para o País é o pré-sal. E além disso a gente continua desmatando, por mais que se saiba que a quantidade de pastagem degradada que existe no Brasil é mais que suficiente para permitir que a gente tenha um aumento da produção de alimentos sem precisar cortar qualquer árvore. Por que tudo isso? Porque a gente ainda não tornou realidade o que foi celebrado em Paris”, disse.